Tecidos Vestimentas de Protecao

 

Confira abaixo a entrevista para a revista Cipa, da editora Casa Nova, realizada em junho de 2018. Regiana Lima, supervisora do Laboratório de Ensaios Têxteis e do Vestuário do SENAI-SP, responde as perguntas da jornalista Lana de Paula. 

 

1 - Quais as principais características dos tecidos para vestimentas de proteção?

Depende do desempenho que ele deve atender. Por exemplo: para colaboradores que estarão expostos ao calor e riscos de explosão os tecidos devem ser inerentes ao fogo. Para colaboradores que estarão expostos à riscos elétricos as vestimentas devem ser confeccionadas com tecidos antiestáticos, O risco pode ser avaliado pela mesma sistemática adotada para dimensionamento e proteção dos equipamentos. As zonas de risco e o potencial podem ser determinados e calculados. Conhecendo a zona e o nível de risco, podem ser estabelecidos medidas de proteção por soluções de engenharia, tais como limitação de energia a um nível suportável, por meio do confinamento da energia e escolha adequada de Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Para riscos químicos devem ser utilizados tecidos impermeáveis, etc.

As características das roupas de proteção para arcos elétricos são diferentes daquelas normalmente utilizadas para proteção por efeitos térmicos das chamas. A transmissão do calor liberado por arco é predominante por radiação (aproximadamente 90%) em um espaço de tempo muito curto, podendo atingir temperaturas altíssimas, como 20.000 °C. O calor das chamas é transferido por convecção e radiação (50/50%) à temperatura em torno de 2.000 °C, dependendo do tipo de material combustível e do tempo de exposição, podendo variar em função do tipo de proteção requerido, por exemplo, para fuga ou para combate a incêndio.

Para proteção da cabeça e, mais especificamente para a face, há a necessidade de manter a visibilidade e, da mesma maneira que os tecidos. Normalmente, os visores utilizam policarbonato, que possui uma característica de absorver impactos, mas com baixa performance de proteção contra o calor do arco. O desenvolvimento tem levado à utilização do polipropionato para proteção contra arcos elétricos, com proteção bem superior ao policarbonato.

Já as roupas de proteção para o manuseio com substâncias químicas devem atender à duas classificações para os níveis de proteção oferecidos pelas roupas: existem duas classificações: Europeia e a Americana. A Classificação Europeia foi estabelecida através do Comitê de Padronização de Produtos para o Mercado Comum Europeu. Essa classificação apresenta 6 níveis de proteção, que variam do Tipo 1 (maior nível de proteção) ao Tipo 6 (menor nível de proteção). Além do Teste de Permeabilidade, os produtos (roupas e materiais de proteção) europeus devem passar por testes de cabine, onde são avaliados a partir da simulação da atividade física do trabalhador. A Classificação Americana, estabelecida pela EPA (Environmental Protection Agency) por sua vez, estabelece níveis de proteção de A (nível máximo) a D (nível mínimo).

 

2 - Como são fabricados? Em linhas gerais, o que essa fabricação envolve?

Os processos de confecção são os mesmos utilizados em uniformes comuns, o que muda são as matérias primas. Mas como as vestimentas devem atender às normas de segurança do Ministério do Trabalho e Emprego (Ex: NR 10 e NR 06), as mesmas devem atender algumas regras específicas como: informações na embalagem e na própria vestimenta como os ATPV. Como regra, cada fabricante de roupa de proteção deve fornecer os valores do ATPV ou EBT, em função do tipo da confecção, independentemente dos valores fornecidos pelos fabricantes de tecidos e esta informação deve estar disponibilizada na vestimenta. Caso a roupa seja fabricada com várias camadas de um tecido, ou composição de tecidos diferentes, o mesmo se aplica para o conjunto. 

O ATPV (Arc Thermal Performance Value) é um indicador denominado para medir o desempenho dos tecidos e caracterizar as roupas de proteção contra arco elétrico. ATPV é o valor máximo da energia incidente sobre o tecido sem permitir que a energia no lado protegido exceda o valor limiar de queimadura do segundo grau, ou seja, 5 Joules por cm2.

O EBT (Breakopen Threshold Energy) é utilizado para medir a energia devido à carbonização do tecido. Nestes casos, é utilizado um valor denominado que é o valor médio dos cinco valores máximos de energia incidente que não provoca o “break open” do tecido, ou seja, o material carbonizado não apresenta abertura na camada interna (próximo à parte protegida) maior do que 0,5 pol2 em área ou rachadura maior do que 1 polegada de comprimento.


3 - Quais as matérias primas mais utilizadas para esse tipo de tecido?

A tecnologia mudou muito, além das características de proteção atualmente os tecidos abrangem outras séries de características de desempenho como conforto e respirabilidade. De acordo com o NFPA 70 E, as fibras de algodão tratado retardante de chamas, meta-aramida, para-aramida, poli-benzimidazole (PBI) são materiais com características de proteção térmica em geral. A fibra de para-amida, além da proteção térmica, ainda tem uma característica que evita o “break open”, ou seja, rachadura do material carbonizado.

Os materiais sintéticos como poliéster, nylon e mistura de algodão-sintético não devem ser utilizados para proteção contra arcos elétricos, pois elas derretem sobre a pele quando exposto à alta temperatura consequentemente agravando a queimadura.

Algodão e mistura algodão-poliéster, seda, lã e nylon são considerados materiais inflamáveis. Os tecidos com fibras de algodão tratado retardante de chamas – meta-aramida, para-aramida, poli-benzimidazole – podem iniciar a ignição, mas não mantêm a combustão quando a fonte for removida.

As vestimentas fabricadas com materiais naturais, como algodão, seda e lã são consideradas aceitáveis, de acordo com a Associação Nacional dos EUA para Proteção contra Incêndios (NFPA), se a análise determinar que o tecido não continuará queimando nas condições de exposição ao arco elétrico.

A NFPA expressa claramente que as fibras sintéticas puras de nylon, poliéster, rayon ou mistura destes materiais com algodão não devem ser utilizadas como material de proteção contra arcos elétricos. Alguns tecidos resistentes a chamas como modacrylico não resistente a chama e algodão tratado retardante de chamas não-duráveis, conforme critério de teste de durabilidade da ASTM, não são recomendados para uso de proteção dos trabalhadores em serviços de eletricidade.

  
4 - São mais indicados para a confecção de vestimentas para quais atividades?

No Brasil, a Norma Regulamentadora nº 6, do Ministério do Trabalho e Emprego, estabelece as exigências legais para Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para proteção dos trabalhadores contra riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho. Nesta NR não está explicita a necessidade de proteção contra arcos elétricos, riscos térmicos, etc., mas estabelece que o EPI deve proteger os trabalhadores contra agentes térmicos para cabeça, face, membro superior e inferior e corpo inteiro. 

 

5 - Como está o desenvolvimento desses tecidos no Brasil?

Muitas tecelagens brasileiras fabricam tecidos com fibras de alto desempenho como a aramida, meta aramida e modacrílico, no entanto, as fibras são todas importadas, mas alguns fornecedores possuem filiais aqui no Brasil.

Tecidos utilizados para aplicação de camadas internas para proteção térmica e antiestéticos também são importados.

Já os produtos químicos utilizados para acabamentos superficiais (retardantes à chama; proteção química, etc.) são comercializados por Indústrias químicas brasileiras.

 

 

Fontes utilizadas na pesquisa:

  • CENELEC – ENV 50354:2000 “Electrical test methods for materials and garments for use by workers at risk from exposure to an electric arc” – 2000.
  • IEEE “Predicting Incident Energy to Better Manage The Electric Arc Hazard on 600 V Power Distribution Systems”. Paper N. PCIC 98-36; Richard L. Doughty, Dr. Thomas E. Neal, H. Landis Floyd, II.
  • NFPA 70E – National Fire Protection Association, “Standard for Electrical Safety Requirement for Employee Workplace – 2000 Edition”.
  • ASTM E1930 / E1930M - 17 -Standard Practice for Examination of Liquid-Filled Atmospheric and Low-Pressure Metal Storage Tanks Using Acoustic Emission
  • ASTM- F-1959/F1959M- 99 “Standard Test Method for Determining the Arc Thermal Performance Value of Materials for Clothing” – 1999.

 

 

 

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